segunda-feira, 14 de março de 2011
Ela caminha sobre estrelas...
...a cada salto, menos menina e mais constelação. Assim ela caminha. Se dissolvendo, ouve em suave sussurro o som infinito vindo mágica e contraditóriamente do vácuo sem fim; o som de tudo e agora também o seu.
As palavras não ditas, palavras tatuadas feito feridas e desentendidas caem de seus olhos verde-mar. Sendo lavadas em lágrimas, soletram-se salgadas do céu...
Onde pingam suas salgadas gotas, brota-se uma pequena vida. Delicada. Porém há força em sua fragilidade, pois apenas das mais amargas lágrimas pode-se erguer as mais imponentes, e belas fortalezas.
Tornado seu sal belos jardins, com a doçura que há, ela pinta o crepúsculo de rósea aquarela, cujos raios penetram os olhos atentos que passam e ali se expandem, se fixam, como uma doce semente pronta para os religar ao infinito. Sementes todas de amor.
E quanto mais ela se doa, mais tem dentro de si.
As palavras não ditas, palavras tatuadas feito feridas e desentendidas caem de seus olhos verde-mar. Sendo lavadas em lágrimas, soletram-se salgadas do céu...
Onde pingam suas salgadas gotas, brota-se uma pequena vida. Delicada. Porém há força em sua fragilidade, pois apenas das mais amargas lágrimas pode-se erguer as mais imponentes, e belas fortalezas.
Tornado seu sal belos jardins, com a doçura que há, ela pinta o crepúsculo de rósea aquarela, cujos raios penetram os olhos atentos que passam e ali se expandem, se fixam, como uma doce semente pronta para os religar ao infinito. Sementes todas de amor.
E quanto mais ela se doa, mais tem dentro de si.
(K)
O menino que carregava água na peneira
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para
mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que
do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
Porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar
água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge
ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando
ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
Manoel de Barros, Exercício de ser Criança
sexta-feira, 11 de março de 2011
Notícia corriqueira...
Punhos de rosas cor de sangue avançam sobre o asfalto. Penetram a fumaça lagrimogênea com suas perigosas pétalas de veludo. Vão rasgando as almas, uma a uma, sem dó ou piedade, das pobres balas de chumbo a aguardarem o comando de largada.
As ordens são gritos em berros.
As rosas avançam ferozmente em marcha lenta. Têm de ser detidas, não há outra escolha.
Primeiro o comando, depois a respiração estrangulada no peito, o som bruto e assombroso dos canos negros. A fumaça, silêncio e o ar pesado e turbulento. O mar de punhos era agora monocromático, daquela cor injusta das pétalas cor de sangue, todas deitadas no asfalto. Brotavam despedaçadas das rosas, brotavam do asfalto e dos peitos em sono profundo, dos olhos de quem tudo viu e vê, das balas de chumbo prostradas em brasa.
A dor de quem dirá que fora tudo em vão.
(K)
quarta-feira, 9 de março de 2011
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