Hoje meu avô materno teve uma isquemia. Assustou toda a família, que ficou com ele das 19h às 23h apenas para descobrir o que acontecera com ele.
Primeiro, senti queimar na pele o que é o plano de saúde por detrás de sua máscara.
Há muito ouço falar de sua decadência, mas "quem nunca viveu a verdade, não sabe o que ela é de fato". E o plano particular é mesmo muito falsamente eficiente e é preciso muito para que ofereça apoio ao paciente e seus acompanhantes. Talvez o que eu vá falar não seja nada de novo, infelizmente.
Foi decepcionante ficar plantada com meus familiares do lado de fora da emergência por quase 1h sem notícia alguma de meu avô. Não vimos um sinal de calor e acolhimento em um local onde só há pessoas aflitas e angustiadas, e isso é irônico. E foi duro ver, mais tarde, meu avô tentar se sentar na maca por algum incômodo que não conseguía nos dizer por não poder ainda falar direito (consequência temporária da isquemia), e ainda assim ver os médicos e enfermeiros passarem por ele e apenas observarem, sem nada checar ou perguntar, sem se importar com o bem estar de meu avô, como se apenas o médico que o acompanhou de início tivesse o poder sobre ele.
Senti mesmo uma hierarquia muito forte e uma posse irracional de pacientes: o médico de plantão não nos deixou chamar o cardiologista de meu avô, nem ao menos avisá-lo sobre meu avõ. E quanto aos enfermeiros, eles quase dizem 'sim senhor' ao médico e, não importa a circunstância ou o incômodo do paciente, fazem apenas o que o médico lhes mandou enquanto poderiam ao menos elevar um pouco a cabeceira da maca, umedecer os lábios que estavam secos, dizer alguma coisa (o silêncio nessas horas é doloroso), falar e rir mais baixo...se isto é ser enfermeiro, me desculpem, mas com que argumentos vocês pedem respeito?
Também ficamos num vaivém infernal. Ao menos meu avô matou todas as lombrigas de quando era criança e enfim passeou de ambulância, como depois me disse hahaha.O plantonista nos mandou para um outro hospital, pois onde estávamos não havia tomografia. Fomos, meu avô fez o exame e tivemos de retornar ao primeiro hospital. Foi pedido internação e tivemos de retornar para o hospital de onde tínhamos acabado de voltar (por que já não o deixaram ali antes eu não sei, fora o fato do plantonista DELE estar lá, no outro hospital). Ali ele esperou -e muito- por um médico até que, por algum feliz acaso, um neurologista conhecido da família apareceu ali e acabou observando os exames, diagnosticando a isquemia e medicando temporariamente meu avô. Tanto vaivém e espera para só depois de 4h sabermos, por um acaso, o que havia acontecido com meu avô. E graças a Deus não era nada tão grave. Era reversível.
E pensei na agonia de meu avô e no medo que estava sentindo pois durante todos os passeios de ambulância não sabíamos nada ainda sobre seu estado de saúde, o que havia acontecido e o que aconteceria. Não tínhamos nada para lhe dizer, apenas que tudo ficaria bem.
E para mim, o fato de ele querer se sentar sempre não era apenas por desconforto ( pois sempre movimentávamos seus membros, massageávamos e ele se virava para cuidarmos de suas costas). Acredito que o fato de estar deitado o deixava passivo e ele estava assustado demais para ficar naquela posição insegura. Segurávamos em suas mãos e ele as acariciava com os dedos. Jamais o vi fazer isso antes.
Mas o que mais marcou foi a falta de humanidade no local que mais humano deveria ser. Os médicos parecem se lembrar de notificar a família apenas quando há más notícias. E quando não há más notícias a serem dadas, os entes ficam se torturando à toa com a idéias de algo ruim estar acontecendo. Não há um olhar e um toque dizendo que qualquer coisa ele\a estará ali, que qualquer dúvida ou pergunta, ele\a estará ali e que ele\a fará de tudo para tudo ficar bem. Ao invés disso, recebemos desprezo e ira em troca de tantas perguntas. Mas felizmente há exceções, ainda que poucas.
Talvez haja algo por detrás disso que os faça ser assim. Não tenho como culpar algo ou alguém, apenas dizer quais são as falhas que presenciei. E depois de tudo por que passamos, penso nas unidades públicas de saúde...e nas pessoas que como nós ficam aflitas, mas que têm mesmo uma notícia ruim a receber no final...e penso com uma terrível angina no peito que o que passamos não foi nada demais, nada mesmo...
Hoje observei duas coisas, e as dividirei em duas postagens.
Primeiro, senti queimar na pele o que é o plano de saúde por detrás de sua máscara.
Há muito ouço falar de sua decadência, mas "quem nunca viveu a verdade, não sabe o que ela é de fato". E o plano particular é mesmo muito falsamente eficiente e é preciso muito para que ofereça apoio ao paciente e seus acompanhantes. Talvez o que eu vá falar não seja nada de novo, infelizmente.
Foi decepcionante ficar plantada com meus familiares do lado de fora da emergência por quase 1h sem notícia alguma de meu avô. Não vimos um sinal de calor e acolhimento em um local onde só há pessoas aflitas e angustiadas, e isso é irônico. E foi duro ver, mais tarde, meu avô tentar se sentar na maca por algum incômodo que não conseguía nos dizer por não poder ainda falar direito (consequência temporária da isquemia), e ainda assim ver os médicos e enfermeiros passarem por ele e apenas observarem, sem nada checar ou perguntar, sem se importar com o bem estar de meu avô, como se apenas o médico que o acompanhou de início tivesse o poder sobre ele.
Senti mesmo uma hierarquia muito forte e uma posse irracional de pacientes: o médico de plantão não nos deixou chamar o cardiologista de meu avô, nem ao menos avisá-lo sobre meu avõ. E quanto aos enfermeiros, eles quase dizem 'sim senhor' ao médico e, não importa a circunstância ou o incômodo do paciente, fazem apenas o que o médico lhes mandou enquanto poderiam ao menos elevar um pouco a cabeceira da maca, umedecer os lábios que estavam secos, dizer alguma coisa (o silêncio nessas horas é doloroso), falar e rir mais baixo...se isto é ser enfermeiro, me desculpem, mas com que argumentos vocês pedem respeito?
Também ficamos num vaivém infernal. Ao menos meu avô matou todas as lombrigas de quando era criança e enfim passeou de ambulância, como depois me disse hahaha.O plantonista nos mandou para um outro hospital, pois onde estávamos não havia tomografia. Fomos, meu avô fez o exame e tivemos de retornar ao primeiro hospital. Foi pedido internação e tivemos de retornar para o hospital de onde tínhamos acabado de voltar (por que já não o deixaram ali antes eu não sei, fora o fato do plantonista DELE estar lá, no outro hospital). Ali ele esperou -e muito- por um médico até que, por algum feliz acaso, um neurologista conhecido da família apareceu ali e acabou observando os exames, diagnosticando a isquemia e medicando temporariamente meu avô. Tanto vaivém e espera para só depois de 4h sabermos, por um acaso, o que havia acontecido com meu avô. E graças a Deus não era nada tão grave. Era reversível.
E pensei na agonia de meu avô e no medo que estava sentindo pois durante todos os passeios de ambulância não sabíamos nada ainda sobre seu estado de saúde, o que havia acontecido e o que aconteceria. Não tínhamos nada para lhe dizer, apenas que tudo ficaria bem.
E para mim, o fato de ele querer se sentar sempre não era apenas por desconforto ( pois sempre movimentávamos seus membros, massageávamos e ele se virava para cuidarmos de suas costas). Acredito que o fato de estar deitado o deixava passivo e ele estava assustado demais para ficar naquela posição insegura. Segurávamos em suas mãos e ele as acariciava com os dedos. Jamais o vi fazer isso antes.
Mas o que mais marcou foi a falta de humanidade no local que mais humano deveria ser. Os médicos parecem se lembrar de notificar a família apenas quando há más notícias. E quando não há más notícias a serem dadas, os entes ficam se torturando à toa com a idéias de algo ruim estar acontecendo. Não há um olhar e um toque dizendo que qualquer coisa ele\a estará ali, que qualquer dúvida ou pergunta, ele\a estará ali e que ele\a fará de tudo para tudo ficar bem. Ao invés disso, recebemos desprezo e ira em troca de tantas perguntas. Mas felizmente há exceções, ainda que poucas.
Talvez haja algo por detrás disso que os faça ser assim. Não tenho como culpar algo ou alguém, apenas dizer quais são as falhas que presenciei. E depois de tudo por que passamos, penso nas unidades públicas de saúde...e nas pessoas que como nós ficam aflitas, mas que têm mesmo uma notícia ruim a receber no final...e penso com uma terrível angina no peito que o que passamos não foi nada demais, nada mesmo...


